sexta-feira, 30 de janeiro de 2009

O tormento

Eles não devem se lembravar de mim, mas eu ainda lembro deles, muito bem por sinal. Os conheci numa manhã ensolarada de abril, nunca parei pra pensar que eles eram uma mentira, assim como aquele mês era. Naquela manhã eles estavam muito bem, corados, pareciam inclusive ótimas pessoas, claro que meio sujinhos mas, fora isso, estavam apresentáveis. Me foram apresentados pela minha secretária do lar(agora não chamam mais de empregada) como seus primos distantes, dessa vez eles se chamavam João e Rodrigo. Os acolhi em minha casa no quartinho dos fundos a pedido da minha secretária, lhes dei comida e até comprei caderno e paguei cursos profissionalizantes para eles já que não tinham condições de comprar nada, acabei gostando deles, me dedicando muito para melhorar a situação em que se encontravam, arrumei emprego para os dois na empresa de um amigo. Rodrigo se destacava mais em todos os campos, era mais inteligente, estava se destacando mais no trabalho e ainda era mais bonito. Não demorei para lhe demonstrar o quão carente eu me sentia naquela casa imensa, pedia pra ele colocar o botijão de aguá no bebedouro, pra ele trocar as lâmpadas e para aguar as plantas, ele era muito inocente(pelo menos se fez passar por tal) e logo logo lhe iniciei na vida amorosa(pensava eu) ao meu estilo, vez por outra ele indagava:"Seu Marcos, o que é isso que o senhor está fazendo?". Eu, lhe respondia que era carinho, amor. Pior que era, lhe transferi para o quarto do meu filho, que já saira de casa fazia muitos anos e morava em Londres, assim, num quarto perto do meu era bem melhor. Eles se impregnavam pela casa cada vez mais, viraram quase donos dela, um dia peguei João dando uma bronca na própria prima porque ela não tinha limpado seu quarto direito. Suas atitudes começaram a me soar estranhas, suas personalidades já não condiziam com o que eram quando chegaram, ninguém muda assim tão rápido. Um dia eu resolvi tirar tudo a limpo e, fui na empresa saber como estavam desempenhando seus papéis, quando cheguei percebi que o clima não estava muito bom, ouvi dois funcionários falando que dois dos principais setores tinham tido seus sistemas invadidos e seus caixas zerados, senti que tinha alguma relação com aqueles dois. Dito e feito! Quando fui falar com meu amigo ele confirmou meu mau pressagio, João e Rodrigo tinham dado aquele golpe. Fui arrasado para casa, não podia crer naquilo, tinha criado e ainda mais, chocado o ovo da serpente na minha própria casa! Cheguei em casa e não pude crer no que meus olhos viam, meu cérebro não queria processar que meu outro carro não estava lá, tentei mentir para mim mesmo que alguém tinha saído para dar uma volta nele. Quando entrei em casa não vi primeiro minha TV e meu som da sala, minha TV do quarto, meu dinheiro e tudo que eu tinha de valor que até hoje não sei onde se encontra. Não fiquei parado, fui atrás deles e usei tudo que tinha no banco para pegar esses golpistas, durante 2 anos fui atrás de cada pista que chegava até mim, não queria nem saber, ia atrás da menor delas. Na noite em que desisti e sentei no sofá para relaxar que liguei a TV, vi aqueles dois safados atrás do ministro de relações exteriores da Turquia se fingindo de donos de poços de petróleo no Kwait. Não perdi tempo, fui com um policial de operações especiais, que eu já conhecia e que também estava atrás desses pilantras, diretamente para a Turquia, fomos até a polícia, na Suprema Corte Internacional e, por último,
fomos ao escritório da polícia internacional para poder ser expedido o mandato de prisão e enviar as viaturas até o hotel que eles estão, esperava que enfim esse tormento acabasse...

"Próximo!"

"Nossa vez!"

"Agora pegamos esses safados!"

toc, toc.

"Entrem por favor, me chamo Dukhad Mahantil, inspetor chefe da polícia internacional."

Não podia acreditar no que eu via, era ele, Rodrigo, como ele estava ali e com aquele sotaque? Como ele sabia que estávamos atrás deles e que já sabíamos da farsa do Kwait? Não conseguimos flexionar uma palavra, formular uma frase, nem eu nem Jorge, o policial. Fomos expulsos do escritório por atrapalhar o andamento da lei. Nunca mais consegui nem se quer tentar encontrá-los, não posso mais com algo mais forte que eu e está em todos os cantos mas, as vezes, ainda sinto falta dos carinhos de Rodrigo. Isso sim é que me atormenta.

Um comentário:

André Valença disse...

aconteceu o mesmo comigo...
sem a parte do sexo.