quarta-feira, 18 de março de 2009
A saga
Até hoje, acho que ninguém parou pra pensar em como eu cheguei aqui, tão longe. Na verdade, nem eu mesmo refleti sobre isso, reflexão, peso na consciência e derivados nunca foram meu forte, pra ser mais exato nunca estiveram no repertório da minha vida. No entanto, aconteceu comigo o que mais cedo ou mais tarde ocorre com todo mundo, as coisas começaram a dar errado e, quando se alcança aquele nivel em que o alarme acende, a pessoa tem de perceber que o tempo passou e que é hora de pendurar as chuteiras, no meu caso, a pistola. Nos últimos anos, a tecnologia fora minha companheira diária na figura daquela semi-automática com mil funções( mas que eu só usava duas: carregar e atirar). Nem sempre foi assim, quando eu comecei, muita gente era na faca mermo, depois passei pro "três oitão", que foi meu parceiro, meu instrumento de trabalho durante 27 anos e 10 meses exatamente, foi muito difícil eu deixar de lado minha companheira, minha mensageira da morte por uma nova, mas, teve de ser assim, a globalização, ela mermo, essa peste que todo mundo fala, chegou e eu tive de entrar nela também, todo mundo do ramo já tinha uma nova, não pegava bem eu com uma velha, perderia reputação. Mas, voltando às coisas da vida, eu fui esperto e saí quando percebi que a corda tava arrebentando do meu lado, meu lado era o mais fraco, eu nunca matei por maldade não, é a única coisa que sei fazer bem feita, matava pra botar comida na mesa dos meus meninos, pra dar pra minha mãe o descanso que ela nunca teve em vida, matava porque por essas bandas de cá, só sobrevive quem tem nome de família grande ou quem mata as pessoas que irritam essa pessoas de família importante, tudo aqui gira em torno desses coronéis, desses senhores que fazem a gente sujar a mão e a alma por eles, só pra eles se sentirem bem. Eu nunca fui perseguido por alma nenhuma até hoje, graças a Deus! Mas eu admito que merecia, matei muita gente inocente, é que chega uma hora que a gente fica no automático e para de questionar a vida e para de se questionar, chega um ponto que nem o nome do infeliz a gente quer saber, não com medo dele puxar o pé da gente de noite, é que sem nome parece que eles viravam objeto e eu podia dormir crente de que tinha um trabalho digno. Consegui essa casa grande, essa mobília, os carros, os empregados, os estudos das crianças na capital, tudo com o suor do meu trabalho, com o sangue dos homens e mulheres que já matei e com a pólvora que parece nunca sair dos meus dedos, que entram na pele e chegam até as veias. Eu não queria ter seguido esse rumo, mas a vida da gente tá escrita de berço, acho que a gente pode mudar uma coisa ou outra, mas acho que no fim das contas a gente é o que tá dito que a gente vai ser. Sou matador, ninguém deixa de ser matador, ninguém vira ex-matador, se existe um que me apresente, preciso de conhecer. De pequeno, eu sempre apanhava dos meninos na rua, nunca podia jogar bola, até em casa eu me arrombava todo, minha mãe me mandava trabalhar feito um burro de carga, encher os baldes de água, varrer a casa, e tudo que você imagine em termos de limpeza do lar. Por um lado eu entendo, minha mãe só tinha a mim de filho, isso porque no meu parto ela teve uma hemorragia muito grande e ficou com sequelas muito graves, impossibilitando ela de fazer qualquer tipo de esforço físico pro resto da vida(por isso que eu queria dar um conforto pra ela, pelo menos no finzinho da vida, entende? Ela deu praticamente sua vida por mim, era o mínimo que eu podia fazer), pra piorar tudo meu pai foi embora logo em seguida e eu tenho certeza que ela, no fundo do interior dela, me culpava em parte e, eu compreendo. Ela era muito devota de muitos santos e misturava todas as religiões, mas ela era devota em especial de São Sebastião, ela morreu acreditando na volta dele para nos salvar. Eu herdei isso dela, essa fé, essa devoção, os santos já me salvaram de muita coisa, sem eles, não sei o que seria de mim nessa vida que eu levava. Eu gostava muito também de ir numa reserva indígena perto da minha cidadezinha e, aprendia muitas coisas lá, plantas que curam, deuses presentes nos mais comuns objetos da natureza, eu percebi que precisava de acreditar em algo maior na vida que levava e, se é assim, quanto mais deuses me protegendo melhor(preferia achar que ele não puniam). Mas, eles puniam. Perdi muitas pessoas que gostava durante toda minha vida, minha mulher mesmo morreu nos meus braços numa cilada que tinham armado pra mim. PRA MIM! NÃO ERA PRA ELA! Hoje, eu acredito que muitas coisas que eu tinha certeza não eram tão certas assim, sou uma pessoa só e não tenho mas tanta segurança das coisas, tenho muita saudade e muitas dúvidas, isso eu tenho, só não me arrependo de tudo porque pude dar para as pessoas que eu amava tudo do bom e do melhor, mas não sei se é o suficiente perante os deuses, sei que não foi suficiente pra mim. Minha vida, na verdade, nunca foi minha.
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Um comentário:
tá de recesso, é?
dois meses!
ou o depoimento do texto é verdadeiro e você é um matador (o "você" poeta, não pessoa) que, cansado de viver a vida dos outros, resolveu viver a morte deles?
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