quarta-feira, 27 de maio de 2009

O ciclo (ou breve relato de uma vida repetida)

Naquela cidade sempre passavam muitas caravanas, bandos ciganos, circos, grupos hippies e tudo mais que sai vagando poraí sem destino certo. Essa é uma das explicações mais fortes pra se entender o quão eram misturadas as mais diversas culturas e costumes naquelas bandas. Usavam remédios naturais e acreditavam na cura espiritual, rezavam pra Javé numa mescla de cerimônia católica com indígena que acontecia às quartas, pediam água pra Iemanjá, criavam os filhos com muita liberdade e todos viviam numa forma adaptada de coletivismo. É importante que se entenda como aquela cidade funcionava, como ela vivia, porque nesse contexto é que se inseria o menino louro, não é que eu não queira dizer seu nome, ele realmente era chamado assim, não foi registrado, logo, aquele era seu nome. Pode parecer um nome muito comum, uma característica que muitos têm, mas lá, naquela cidade, só ele era louro, na verdade, essa é a razão dessa estória ser contada. Desde que nasceu, suas madeixas douradas chamaram atenção de todo mundo da cidade e das vilas ao redor, ninguém entendia o porquê dele ser diferente, ninguém louro morava por lá. Sua mãe, nunca revelou a identidade do seu pai, muitas vezes parecia querer falar mas, algo maior a impedia. Cresceu assim, sem saber sua origem e com todos o olhando estranhamente, por consequência disso, aliado ao alcoolismo de sua mãe, desenvolveu um ódio incontrolável, que se manifestava com um estímulo mínimo, ou até sem ele. Conseguiu uma cicatriz no ombro praticamente de graça, quando um homem que estava num bar apontou para uma estátua que estava atrás do menino e, pensando que estava apontando pra ele em tom de deboche, se jogou em cima do rapaz, que por mais que não estivesse entendendo nada quis manter sua integridade física e sem enxergar direito pegou a primeira coisa que encontrou, no caso, um garfo, e cravou no ombro esquerdo do menino, que agora, já era rapaz. Ademais desse descontrole, era um rapaz como outro qualquer, gostava de jogar bola, de sair pra dançar, de ler, de namorar, enfim de tudo que um rapaz normal da sua idade geralmente gosta. A questão é bem simples, disse que ele gostava de tudo isso, não que o fazia. Sofria com a diferença, não tinha amigos, não era chamado pelos outros rapazes para jogar bola, muito menos pra sair pra dançar, as moças? Delas eu nem comento, era desse grupo que adivinha a maior, mais intensa e mais dolorida exclusão, o sentimento mais frio, aquele que vem de debaixo da barriga. Mas assim cresceu, como foi forçosamente privado de todas as outras coisas, leu muito e se tornou um culto autodidata, sabia sobre tudo, na verdade não tudo, sabia o tudo que tinha na biblioteca da cidade que, nesse caso, é o seu tudo e de todos os cidadãos ali nascidos e crescidos. Na teoria, sabia mais da anatomia de uma mulher que qualquer homem daquela região, sabia até de aviões, coisa que por ali raramente passava, sabia do processo de fermentação alcoólica, esse último era um assunto de interesse particular, estudou muito porque queria conhecer de perto o que matara sua mãe, que destruíra sua família, queria entender o que de tão mágico tinha naquilo que só lhe trouxe desgraça. Apesar de tudo, se considerava uma pessoa feliz, vivia num mundo ideal, o mundo criado por ele para fugir do qual não era aceito, um mundo no qual era senhor das escolhas e das ideias, juiz, rei e o próprio bandido. Nessa história de peregrinação de sua casa até a biblioteca municipal, de eternas idas e vindas, se passaram 35 anos, na verdade, 34 anos, 10 meses e três semanas, exatamente. Tanto se excluiu (ou foi excluído, agora não mais importa) que as pessoas já não mais lhe conheciam. Se deu conta disso e foi dar uma volta pela praça, só pra constatar que tudo estava no seu mais devido lugar, os velhinhos jogando gamão e dominó, as empregadas falando sobre política e as patroas da vida alheia, foi também para matar a saudade, se é que assim podemos chamar esse sentimento, dos olhares estranhos e de rejeição enviados a si. Constatou tudo isso menos um pequeno detalhe, não o olhavam estranhamente, não mais. Não entendeu. Correu para casa e procurou, procurou, procurou. Procurou ainda mais, aquele objeto que há tanto já não mais lhe interessava, aquele que só o lembrava do motivo de sua exclusão, procurou tanto que, enfim, o achou, aquele velho e empoeirado espelho. Se olhou calma e desconfiadamente, viu que apesar do tempo, estava quase igual a sua mocidade, percebeu a ausência das espinhas, viu uma pele mais grossa e calejada pelo tempo, marcada por linhas que lhe diziam tudo o que passara até o presente momento, por fim, olhou seus cabelos.A surpresa. Não mais viu aquelas madeixas louras, percebeu que o tempo também passara para elas, o brilho áureo foi ofuscado pela idade. Não sabia se estava feliz, por ter saído na rua e ser só mais um, ou se era rendido pela tristeza da passagem do tempo, até que percebeu que o tempo não tinha passado para ele, que não tinha vivido até o presente momento e, por fim entendeu, todos aqueles anos ele estava se preparando para a vida que viria, para o momento final da libertação. Não sabia por onde começar, entrava em todas as lojas, comprou vários produtos iguais em lojas diferentes só para saborear a receptividade, o sorriso das pessoas, ou até a indiferença delas. Acabou a noite com 23 camisas, 15 calças e 10 pares de sapatos, além de uma barriga cheia de comida, das barracas de pastel da rua, até o restaurante francês recém aberto . É importante ressaltar que muitas coisas mudaram na cidade, já não eram mais coletivistas, lojas e restaurantes particulares abriam como pragas, no começo, foi difícil mas, logo se sentiu seduzido por tantas coisas de fácil acesso, esqueceu fácil e completamente a imagem da infância e tudo que esta representava. Fazia questão de mostrar a todos que lá estava. Nas noites seguintes bebeu em todos os bares, conheceu alguns caminhos da paixão, se deitou com todas mulheres que conseguiu (não me deterei neste assunto, uma vez que apesar de muitas mulheres, foram acontecimentos um tanto efêmeros demais, digamos assim) e fez muitas amizades, mesmo que aquelas de bebedeira, daquelas nas quais no dia seguinte não se sabe nem o nome da criatura. A vida seguiu assim, muitas farras, muitas mulheres, muitas roupas, ninguém mais o relacionava com o menino louro, nem mais lembravam dessa figura, que a essa altura, se tornara quase uma figura folclórica da região. Seguiu, de fato, a vida seguiu, até o momento que conheceu Clara, uma bela jovem de traços indígenas e com curvas acentuadas e exóticas. A partir daqui, entramos em outra estória, com cenas de amor, jantares românticos, conversas ao pé do ouvido sob a luz da lua, noites de amor no rio, conversas reveladoras e cenas excluídas por seus conteúdos um tanto impróprios a este relato. O homem grisalho (pois há muito já virara homem e há pouco se convertera em grisalho) e Clara formaram um belo casal, deixaram a vida desregrada que ambos levavam e compraram uma casa. Trabalhavam muito mas, apesar de tudo, se amavam cada vez mais, tanto, que esse amou gerou um produto, uma flor, como ele costumava dizer até o nascimento, que durante os 8 meses, 2 semanas e 3 dias trouxe muita alegria e uma esperança de terminar bem, uma vida fadada à desgraça. Foi uma esperança, durante todo aquele tempo foi uma verdadeira esperança. Mas, nem sempre ela corresponde. Ao ver seu filho nascer, o homem percebeu o quão claro era o cabelo do bebê, muito se assemelhava ao seu nas fotos de família (ou nas da mãe, que era sua família inteira, dá no mesmo, é que soa mais imponente, mas grandioso). Pensou. Refletiu muito no corredor do hospital. Titubeou, fraquejou, mas, no fim, pensou no como foi sua vida desde pequeno e percebeu que não queria isso outra vez, não queria ser olhado estranho novamente, nem pensou na criança que nascera. Voltou à casa e arrumou sua mala, colocou tudo que possuía nela e queimou todo o resto das coisas associadas a ele, apagou todos os seus rastros. Fugiu. Pra bem longe partiu, achando que a distância ditaria sua tranquilidade, sua leveza na consciência, mal sabia que, aquele pedaço deixado lá na sua cidade estava grudado com ele, no seu cabelo, na sua vida, no seu sofrimento.

Um comentário:

transparessencia disse...

ciclo repetido.
fatos ja vividos
atos ja banidos
eu nao cairei na mesma.