segunda-feira, 29 de setembro de 2008

A Trupe

Joana acordou com aquela sensação de que não havia chão no mundo suficientemente sólido para ela pisar naquele momento.E se pensarmos bem, acabaríamos concordando com Joana.Tudo começou mais ou menos a uma semana atrás quando uma trupe de circo chegou na pequena cidade, mal sabia ela que junto com as novidades, essa trupe trazia o epicentro do terremoto que passaria por sua vida, quer dizer, que acabaria com o que restava da vida que já tinha ido embora quase que por completo.Mas deixemos o julgamento de sua existência de lado, medíocre ou não, havia uma existência, ou pelo menos uma aspiração a tal coisa.Quando a trupe chegou, Joana ficou muito feliz, finalmente alguém tinha ouvido suas preces, ela pensava,finalmente algo pra fazer, algo pra livrá-la daquela monotonia que a consumia um pouco a cada dia.Pablo Ricardo era o nome do seu marido, e talvez por causa desse nome, que lembrava a ela as novelas mexicanas de que tanto gostava, ela tenha se casado com ele, na verdade era um questionamento que ela sempre se fazia, o que ela tinha na cabeça pra se casar com aquilo que nem homem parecia.Pelos seus pensamentos não preciso dizer que eles não se amavam, na verdade, eles aprenderam a se tolerar e, assim, iam levando a vida.Pablo era um homem muito magro mas que tinha uma incrível disposição para trabalhar.Pena que era viciado, em qualquer tipo de jogo, de quinta a domingo ele não dormia em casa, bebia e jogava a noite toda, gastando boa parte do que ganhava, que já não era muito, e se transformava em menos ainda com suas jogatinas, o que fazia da vida do casal uma vida muito apertada.Não tinham filhos, segundo Joana não fazia sentido eles botarem no mundo uma coisa que não podiam cuidar, um bebê que já nasceria com a morte no seu encalço.Quem vive com uma pessoa 15 anos sabe que por mais que o amor não exista,é necessário que de vez em quando haja uma troca de afeto,isso que na verdade sustenta esses relacionamentos.E naquele dia quando Pablo numa quinta-feira, diga-se de passagem que era dia de jogo,chegou chamando Joana para ver o espetáculo do circo foi um desses momentos, e, por incrível que pareça, eles se sentiram amados por exatamente uma hora e vinte dois minutos, durante aquele tempo, cada segundo foi mágico, a saída da casa, quando ele abriu a porta pra ela passar, o caminho de barro que eles percorreram com os pés vestidos de humildes chinelas arrastando no chão naquela noite cheia de estrelas, a entrada no circo, cheio de remendo e parecendo mais sensível que uma pena( se batesse um vento mais forte não quero nem pensar no que ocorreria, tamanho o esforço que ele fazia pra se equilibrar naquelas hastes improvisadas), a limpeza precisa que ele deu no banco do circo pra ela se sentar, tudo foi perfeito até o momento em que se encerraram aqueles precisos 82 minutos, momento esse que além de coincidir com a entrada de Jeyzão, a mulher barbada, foi encerrado por este mesmo evento.Pablo sentiu uma coisa dentro de si que jamais tinha sentido, um aperto no coração agregado a um imenso prazer, um estado de êxtase inominável, foi nesse momento do ocorrido que ele percebeu que estava enamorado pela mulher barbada.Fingiu até o fim da apresentação que nada tinha ocorrido.Quando o espetáculo se deu por encerrado, ele disse pra Joana que ia jogar com os amigos e disse que ela seguisse sem ele pra casa e assim ela procedeu, ainda encantada, sem nada perceber, jurando que tudo a partir daquele dia seria melhor, que eles se amariam.Após se livrar da mulher, Pablo foi bater ponto em frente ao trailer de Jeyzão, quando ela saiu toda cheia de espuma de barbear seu coração palpitou, seus olhos vibraram e ele partiu ao ataque sem pena, falou do seu sentimento espontaneamente como nunca falara em toda sua vida, as palavras iam saindo sem o controle da sua boca e do seu cérebro, simplesmente saíam.Jeyzão nunca tinha ouvido coisas tão bonitas, nem na novela mexicana que tanto gostava, logo, ela não resistiu e ali mesmo no gramado ela se entregou a ele, quer dizer, pelo porte físico e pela fome de tal coisa é mais justo dizer que Pablo Ricardo se entregou a Jeyzão, que lhe jogava prum lado e pro outro como se fosse um boneco de pano.Foi a noite mais incrível da vida daquelas duas pessoas.Não conseguiam agir depois daquilo com o domínio da razão, foi agindo impulsivamente que fugiram naquele dia, naquela hora, com a roupa que tinham no corpo e mais alguns objetos que ela considerava de valor.Nunca mais Joana veria Pablo, nem Pablo veria Joana.Uma semana depois, uma daquelas vizinhas fofoqueiras, que sabem da vida de todo mundo, disse que tinha ouvido falar que Pablo tinha fugido com uma mulher do circo e que tinha passado a três dias numa cidade vizinha, onde sua irmã, que tinha herdado o dom da falácia, morava.Joana já estava muito mal desde o domingo quando ele não apareceu na hora de costume, falou com todos os amigos do marido, ou ex-marido, que seja, e nenhum tinha o visto desde a semana anterior.Aquele simples boato a atormentou e a deixou como foi descrito no início da estória.Joana nunca soube a verdade, também tanto fazia, acho que ela ficou mais triste por tê-lo perdido no dia em que achou que tudo mudaria do que tê-lo perdido em si.E não a saudade a atormentou durante seus dias, mas a ilusão de que teria sido feliz com ele a partir daquele dia em que ele foi para não-sei-onde com não-sei-quem.Seu projeto de vida feliz não tinha sido concretizado, por exatamente duas horas e três minutos ela não teve chão na vida, mas passada aquelas duas horas e alguns minutos ela se levantou, tomou um remédio, concluindo assim que aquilo que tinha sentido até o momento era resultado de uma dor de cabeça, vestiu sua roupa de quase todo dia, sentou na cadeira de balanço, viu sua novela mexicana e foi feliz por aqueles quarenta e seis minutos de novela mais treze de comerciais, fez o jantar, comeu e foi dormir.Durante os quarenta anos que se passaram, ela repetiu aquela mesma rotina, com exceção das novelas mexicanas que foram substituídas por novelas brasileiras feitas por atores e atrizes que pareciam noruegueses, mas que a deixava feliz do mesmo jeito.Ao final desses quarenta anos, mas precisamente 39 anos, 11 meses e 24 dias ela dormiu, dormiu tão profundamente que nunca mais acordou.Pelo que eu soube, ela morreu com um sorriso bem largo na face, dai se conclui que pelo menos ela morreu sonhando com algo feliz, eu particularmente acredito na versão em que ela sonhava que era uma personagem das novelas mexicanas e que seu par na trama era Pablo Ricardo.Só assim eu posso encerrar essa narração com a sensação de que Joana foi feliz, e se não foi, pelo menos morreu de tal forma.

2 comentários:

transparessencia disse...

mesmo quando é assim pequena
a explosão, como a ocorrida;
mesmo quando é uma explosão
como a de há pouco, franzina;
mesmo quando é a explosão
de uma vida severina.

André Valença disse...

Nada me impede de dizer que Machado também deve estar batendo palmas para isso em sua cova, afinal, acho que ele gosta da boa leitura!