Era manha de sábado. Quer dizer, pelo que me contaram era uma manha de sábado, mas ao certo nem eu nem você, meu caro leitor, vai ter certeza. Enfim, nessa tão discutida manhã um homem vagava pela vegetação seca, que por mais seca que fosse, na verdade, não era mais seca do que a sensação de impotência que se passava pela sua mente e se transmitia por todo seu corpo, o que justificava claramente aquela dor na perna...Pelo menos essa era a melhor explicação que ele tinha encontrado até aquele momento, momento esse que já se conclui não ser dos melhores e, na verdade, não era. Mas detenhamo-nos no homem, com seu semblante simples, de quem a vida não pensou duas vezes em castigar. O homem vinha da casa de uma dessas rezadeiras, tão comuns por essas bandas do sertão nordestino, e lá tinha tido uma grande revelação, revelação essa que vamos esquecer por um breve momento. Na sexta-feira ele acordou e não ouviu o costumeiro barulho que sempre povoava aquela humilde casa, humilde, mas sua e, disso, ele se orgulhava. Apesar de não ouvir nem perceber nenhum movimento na casa ele se levantou calmamente, escovou seus dentes, lavou o rosto e urinou, urinou como se fizesse três dias que não ia a um banheiro, pelo menos isso era o que se passava na sua cabeça e, vendo a sua tamanha criatividade, ele riu, riu profundamente e, por um momento, parecia que tinha esquecido da situação precária em que estava vivendo e da ausência do barulho, a primeira preocupação ele tinha sempre, já a segunda era bem recente, mas por mais recente que fosse lhe ocupava na mente um espaço bem maior. Após ter feito a sua higiene foi ver qual a razão de tamanho silencio. Não demorou muito pra perceber que nem sua mulher nem suas filhas lá estavam. O desespero chegou de mansinho, mas foi crescendo a cada fração de segundo que se passava naquele velho relógio-cuco. A ponto de passados 14 segundos ele se desesperar e sair gritando pela vizinhança. Por mais que pensem que aqueles gritos eram de preocupação com sua família estão todos enganados, aqueles gritos eram de preocupação com ele mesmo, já fazia tempo que sua relação com a mulher não vinha bem e seu maior medo era justamente esse, que ela o largasse. Depois de toda aquela cena, digna de uma tragédia grega, ele se acalmou e viu que o melhor a fazer era voltar pra casa e pensar em alguma forma de trazê-la de volta. Onde ela estaria? Com quem ela estaria? E por que justamente agora que ele tanto precisava dela, ela se fora? Pensou, pensou muito, até chegar a brilhante conclusão: ele tinha que visitar Elvira Parteira. Elvira Parteira era, como o nome já diz, parteira e vale ressaltar que era a melhor da região, respeitadíssima. Alem de parteira, Elvira era rezadeira e ainda vidente, e quando se tratava de assuntos amorosos, ai sim Elvira tinha talento, ela via de longe qual o problema e já apontava uma solução, quando podia ter, claro. Quando chegou na casa de Elvira, pela tarde, tinha um certo movimento, pelo que me consta ela tinha feito um parto de trigêmeos com sucesso, o que praquela região e naquelas condições, diga-se de passagem, péssimas, era quase um milagre. E se alguma parte dele relutava em se consultar com a vidente, agora já não relutava mais, depois de um feito desse quem poderia não crer numa mulher dessa? Pelo menos isso era o que ela pensava, seja lá por pura e verdadeira crença ou pra satisfazer sua consciência de que o certo era estar ali. Depois de um bom tempo, algo entre 17 e 19 minutos, ele finalmente foi atendido. Ao entrar no quartinho, que durante o dia virava uma sala de consultas, ele viu que ela o olhava de lado, com uma cara não muito boa, o que para ele já foi o bastante para saber que não seriam doces nem amáveis as palavras que por aí viriam, mas mesmo assim ele manteve a calma. Sentou numa cadeira de frente para a da vidente e antes que ele pudesse dizer qualquer coisa ela lhe disse que já sabia o porquê da presença dele e que infelizmente ela não voltaria pra ele. E ainda disse mais, que onde ela estava, estava muito feliz, que ele não fez por merecer o amor da mulher e que ele, por mais difícil que fosse, se conformasse com isso. Quanto a suas filhas, Elvira disse que ele voltaria a vê-las em breve, que com isso ele ficasse tranquilo. Quando ela acabou ele estava pasmo, uma parte devido às noticias muito negativas, mas a maior parte se devia a precisão e aos detalhes das informações apresentadas por ela. Umas cinco ou seis gotas de lágrima percorreram sua face rude. Após se recompor ele pagou a consulta e agradeceu, nem cogitou a hipótese de questionar a revelação de Elvira, afinal ela era quase uma santa, uma mulher talentosa, que sabia o que fazia, isso é o que ele pensava, talvez para aliviar sua dor.
No caminho de volta lembrou que a vidente ultimamente tinha ido muito a sua casa pra falar com sua mulher, da qual era grande amiga e pensou se aquilo podia ter alguma relação com os acontecimentos e com a revelação precisa de Elvira. Será que Elvira sabia de tudo? Inclusive do resto que ela não contou? Será que ela tinha alguma coisa a ver com isso?Se realmente ela estivesse envolvida, ele não ia deixar barato, ainda mais porque além de fingida ela tinha cobrado a consulta, sem estar fazendo trabalho nenhum de vidência. E sem pensar duas vezes deu um giro de 180 graus e voltou à casa da parteira. Quando lá chegou, ele percebeu que já estava fechada, que Elvira tinha encerrado por aquele dia seus trabalhos e achou muito estranho, estava muito cedo para ela parar com as consultas. Deu a volta na casa e chegou aos fundos, ele tinha que tirar aquilo a limpo. A porta estava entreaberta e ele entrou sorrateiramente, ouviu barulhos vindos do quarto que minutos atrás ele estava se consultando e foi ver o que se passava. Quando abriu a porta ele não acreditou no que via, esfregou os olhos tantas vezes que eles ficaram irritados, não conseguia acreditar que via sua mulher se beijando com Elvira. Não podia acreditar que sua mulher tinha o trocado, ainda mais por uma mulher, quem a sustentaria? Lugar de mulher era dentro de casa, cozinhando e lavando roupas, o que Elvira ganhava não daria pra nada. Ele avançou na hora separou as duas, gritou, esbofeteou, chamou-as de todos os nomes imagináveis e inimagináveis e, por fim, caiu no chão sem forças. Ele exigiu explicações. A mulher, descabelada, cortada, magoada, lhe disse que amava Elvira e que ele não podia fazer nada pra mudar isso, que não lhe deixou bilhete porque ele nunca aceitaria aquela situação e, com suas ultimas forças, disse que ele não deixaria de ver as filhas. Ele retomou o fôlego e esbravejou que ela não tinha esse direito, que o pai dela não ia gostar nem um pouco de saber daquilo e que papel de mulher era ficar ao lado do marido, ser fiel, alem de dizer varias vezes que ela e Elvira iam arder no inferno, que aquilo era um crime, um pecado sem volta. Disse que não ia deixar as filhas viverem numa casa com tamanha indeiscência, que elas iam morar com ele, já. Fitou Elvira e perguntou como ela tinha tido coragem de lhe apunhalar pelas costas, ele, que tantas vezes a ajudara. Pediu seu sagrado dinheiro de volta e disse que em dois dias voltaria pra buscar as meninas e que se o impedissem ele as matava, sem exitar. Saiu da casa a todo vapor, mais alguns segundos ali e teria feito uma besteira sem volta. Naquela noite ele passou por todos os cabarés da cidade vizinha e da sua cidade, deitando com o maior número de prostitutas que conseguisse, tomando todo e qualquer líquido que demonstrasse vestígios de álcool. Apagou. Foi despertar na cama de um puteiro com uma rapariga, ainda por cima feia, esse foi seu primeiro pensamento. Se levantou as pressas e pegou o caminho de casa. Ai voltamos a manhã de sábado, se é que era sábado, só que agora sabemos, caros amigos, o que se sucedeu na vida desse homem simples, que mais uma vez foi castigado pela vida. Agora é sabido que aquela sensação de impotência se deve ao fato de não poder fazer nada pra trazer sua mulher de volta, a essa altura ele não a queria mais por a amar, mas para o livrar dos boatos e intrigas que a partir de agora, pelo menos era o que ele achava, iam persegui-lo. Ele já não sabia mais o que ia ser da vida, corno, mal-falado, o que ele conseguiria com aquela fama alem de muita gozação ele não sabia. Pensou nas filhas e, lá no fundo, veio alguma força pra continuar. Continuou a caminhada, sabia que não ia ser fácil, mas, afinal, quando a vida foi fácil pra ele?
Um comentário:
Massa! Melhor do que o outro, de fato! Quando eu pensei que você ia seguir o estilo fantástico, você trocou tudo. Termina bem, em aberto! Gostei!
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