À Borges
O outro apareceu na minha frente de repente. Questionei-lhe incessantemente, cor do quarto, o que estava escondido na segunda prateleira do armário, o que a vovó tinha dito quando ele escolheu ser jornalista em vez de engenheiro, o que ele costumava fazer religiosamente antes de dormir, e por último, quem ele amava e o que lhe doía, que no fim das contas concluímos ter a mesma resposta. Ele estava velho, mas lembrava de tudo. Debochava de mim com uma classe que eu invejei, e mais, que eu sempre tentei e nunca consegui ter. O outro não falava muito, parecia refletir serenidade a todo instante, até quando falava a coisa mais banal e despretensiosa. Passamos uma tarde inteira juntos. Não nos aproximamos só metaforicamente. Fizemos poucas coisas além de mudar de posição no banco de uma praça qualquer de Praga, contei cinco mudanças quase que sutis em seus movimentos de sentar, era movimentos conscientes, sempre. Hoje, passado o susto, posso dizer mais tranquilamente, eu era o outro. O outro era eu.
Um comentário:
eu sempre me arrepio e me surpreendo
é sempre.
engraçado isso..
é bom!
lindo.
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