"É sempre assim: o homem nasce, cresce e, em certa hora, morre..."
Uma voz forte mas desgastada pelo sofrimento ecoa pelo cubículo.
"Para para para! Para tudo! Esse texto está, simplesmente, uma grande, uma imensa bosta! Quem escreveu esta porra e teve a audácia de chamar de roteiro?"
Um homem magro, de olhos vermelhos, com um eterno sorriso no canto da boca entra na sala.
"Fui eu chefe! Gostou?"
"Isso aqui está horrível! Sei lá, como pode uma coisa dessa sair da cabeça de alguém?"
"Veja bem chefe, eu tentei fazer uma recapitulação da vida do ser humano como um todo pra depois chegar na reflexão individual..."
"Que papo é esse de reflexão?! Reflexão porra nenhuma, ninguém quer saber disso não! Escreve aí qualquer bosta triste e bota ele pra chorar..."
"Mas..."
"Se eu ouvir essa sua voz fina de novo eu mando você pro Afeganistão seu merda!"
O homem magro já esta abrindo a porta quando o outro lhe chama e dá o aviso derradeiro.
"E tira esse sorriso de toda hora no rosto senão eu faço você nunca mais sorrir!"
"Sim senhor."
Esse homem magro sou eu e não entendo a razão de ninguém me dar ouvidos e não gostar das coisas que faço. Nasci, li, brinquei, fumei, bebi, aprendi, sei lá, mas acho que não cresci, não me conformo com a forma como as coisas andam, "progridem", por isso insisto que não cresci e insisto em não crescer. Sei que tá tudo errado, mas como tá tudo errado, tudo acaba sendo demais e, sendo demais, eu não posso realizar, mudar. Vendi minhas coisas sagradas (meu super nintendo, meu mega drive, meus comandos em ação, minha coleção "secreta" de revistas "adultas", enfim, tudo que um garoto tem de valor) quando era mais jovem e prometi largar tudo que eu tinha em busca de mais, pelo menos em busca. Juntei o dinheiro, contei o projeto a poucos amigos próximos e estava só esperando o momento certo, que tinha que ser rápido. Ele não apareceu, o momento, nem certo nem rápido, nem nada. Até hoje me questiono porque não fiz o que tinha de fazer. Sei que depois disso veio um momento em branco da minha vida chamado Universidade, não me lembro bem dele, do que estudei, do que "aprendi", do que "produzi", só lembro das pessoas, passando, se movendo, se movimentando, me movimentando, me pegando, me cantando, me encantando, das luzes, dos sons, de toda sinestesia, da síntese, do sintético, do natural, da Natureza, dela. Ela é um assunto que não gosto muito de tocar. Por quê? Porque ela era intocável. É intocável. O jeito que ela sorria, que ele argumentava, que ela falava, andava, sorria, dizia, mexia, encostava, sorria, tudo era só encanto. Posso ter falado muitas vezes "sorria", mas é que é a coisa mais inexplicável aquele jeito dela, como ela fazia. Ela encostava em mim às vezes. Eu tremia. Muito. Tinha medo de perder o momento, de perder o controle. Pensei em levá-la comigo na minha jornada forjada. Se eu a conquistei? Se eu a beijei? Não, não, eu não fazia o "estilo" dela. Eu achava que isso não existia, pra mim ela sentia uma energia forte, pra mim ela devolvia os pensamentos que eu mandava, pra mim, toda vez que ela roçava no meu braço ou me abraçava era a prova de tudo isso. Seu jeito doce e descolado fazia com que ela tratasse todos bem, inclusive eu. Me diziam, inclusive amigos meus, que ela era assim com todos, que era do jeito próprio dela e, que tudo que eu pensava, era produto da minha mente fértil de quem quis ser escritor desde que leu "Cem Anos de Solidão", que ela nunca seria minha nem por uma noite, nem por um instante sequer, nem que se passassem 51 anos, nove meses e cinco dias,que muito menos iria num cruzeiro comigo. O pior é que nunca soube da boca dela. O pior é viver a dúvida do nunca, a dúvida do talvez, a dúvida da dúvida, da tristeza de ser menor, de se sentir menor. Eu não trabalhava, não estudava, só vadiava. Assim me classificavam: vadio. Desde o dia em que manifestei meus sentimentos para um amigo em comum e ouvi tudo aquilo que não queria, sobre diferença, sobre afinidade, ali sim, de fato, me fez sentir menor, um merda, um vadio. Por isso que quando o Seu Mata me chama de merda pelos meus roteiros eu não ligo, sei que me fiz assim, apesar de não sê-lo. Estudei muito depois desse dia e botei na cabeça que ia ganhar dinheiro, escrever livros, ser artista, ator, multi-talentos, ser respeitado por todos, só pra, no final, ser respeitado por ela. Chegando aí, poderia mandar todo mundo tomar no cu. Nada mais fazia cócegas, nada mais me fazia rir de verdade, daqueles risos que vêm de dentro, nada era alguma coisa. Mas aí eu me dei conta de que eu estava pra escrever um romance, que isso não era coisa de gente, eu não sou a encarnação de Lord Byron. Vi que pra ter respeito eu preciso me respeitar e, nunca o fiz, sempre deixei minha vaga no ônibus da vida pros outros e, que queria sucesso, fama, glória, não só por ela, mas por mim. Ela me fazia ver, mas eu que tinha que me fazer ser. Tudo bem, posso não ter pensado tudo isso logo de cara. Finalmente, entre essa sucessão de pensamentos mal organizados, consegui estágio num jornal local, de renome, que pagava bem. Trabalhava sem parar, não pensava em nada, comia trabalho, transava trabalho. Fiz isso por anos e, quando me vi, estava na maior rede de rádio do país inteiro, como roteirista-chefe. Chefe não sei de quê, porque quando me vi no espelho depois de tudo não me dei por mim, não consegui dar respeito à minha própria imagem. Tinha me tornado um verme, submisso, magro, descuidado, carente, com muita grana, bufunfa de anos de labuta suada, mas sem nada, sem ela, sem meus sonhos, minhas viagens, meus livros, meus personagens, sem mim. Com esse dinheiro poderia achá-la facilmente, dizer tudo que eu deveria ter dito nos tempos passados. Mas, peraí, como ela estaria agora? Será que conservara aquele sorriso lindo, aquela magia na cadência, aquele jeito de roçar no meu braço, de rir de mim, de me fazer ser algo? Ou teria encontrado um "semelhante", gordo, ocioso, ou mesmo sarado e atlético, mas que a deixou infeliz, que transformou aquela sonhadora numa ama do lar, amamentando filhos mil como profissão, sem ser tocada, amada, admirada, sem ter olhos que lhe seguissem a todo instante. Não! Não poderia vê-la assim. Talvez até tivesse sido feliz e tudo que me disseram tivesse sido verdade. Vá saber. Poderia escrever meu livro, dar vida às minhas criações que com tanto afeto eu carregava dentro e fora de mim. Sei lá, poderia viajar, conhecer Barcelona, Buenos Aires, Paris, todos esses lugares que sempre povoaram meu imaginário e que me renderam estórias e odes, louvações de uma pseudo-visita. Poderia montar meu teatro, ser rei dos meus palcos, da minha vida, das minhas escolhas, pelo menos a partir de agora. Me vi, quando refletia sobre isso, o mesmo menino, o mesmo jovem que não teve coragem, o mesmo apavorado vestido de sorrisos e confiança fictícia. Deitei, ali mesmo, no estúdio, viajei ao meu mundo de antes, a tive, a levei comigo na viagem, fiz ela sorrir como nunca, lhe dei amor como sempre, brigamos como era de costume, escrevi poemas à ela, declamei eles na cama ao pé do ouvido, crescemos, nos mutamos em pessoas realizadas profissionalmente e afetivamente, fomos nós, demos nós, juntos e separados. Acordei, aquilo tinha sido demais real. Aquilo tinha sido demais pro meu coração, que gritava loucamente por socorro, precisando urgentemente de um terapeuta. Enxuguei o suor que me corria todo corpo e me peguei pensando nela e em todo meu projeto de vida como antes. Disse pra mim mesmo que já não era tempo pra essas brincadeiras por dentro, dei uma dura nos meus neurônios, no meu sistema nervoso, meu coração pobre, de afeto, de luz, de alegria, daquele sorriso, e ainda por cima velho ia pifar se esse ritmo seguisse. Fui no banheiro, não reconheci muito aqueles corredores, mas acabei achando o toalete, um pouco diferente, mas ainda tinha o urinol branquinho. Mijei, balancei, me balancei, compus, me recompus, lavei minhas mãos, olhei o espelho e me vi, lavei minha alma. Olhei mais uma vez no espelho e tinha algo diferente em mim, um brilho, sei lá, menos rugas, o sorriso do canto da boca não era mais amargo, ainda era da lembrança, das coisas gostosas. Sentei e esperei que alguém viesse me chamar, me acordar, me situar, me dizer, me entender. Ninguém veio e, eu, por minha vez, também não fui, lá permaneci. Chorei, como um bebê faminto, como desde muito jovem não fazia e, de repente, me vi na mesma sala onde conversara com aquele amigo em comum, de repente ele aparece e me pergunta: "Por que tu me chamou aqui essa hora, com toda essa pressa?". Enlouqueci. Corri, gritei, me esbofeteei, chorei, revi tudo, revivi o todo. Desperto, dessa vez era real, a sala do estúdio estava igual, o corredor também, mas, novamente, eu não estava igual, dessa vez, estava mais velho e nem me dei conta que dia após dia, ano após ano, eu me disfarçava, dormia e fingia ser diferente, sequências de cenas após sequências de cenas eu fingia me revoltar com meu chefe, com minha vida, com minhas frustrações, fingia ter podido ter ela, ter tido coragem, atribuir culpa a quem quer que fosse o mestre da vez. Na verdade, nunca deixei de ser o menino, aquele labirinto físico do estúdio representava o labirinto da minha vida, o vazio da minha alma, o oco do meu coração já falecido, esquecido, cansado de gritar.
Abri a porta, o chefe estava lá, com a mesma cara de bunda, prestes a espernear, mas, eu prontamente lhe entreguei o conjunto de folhas ainda rabiscadas e saí, sem esperar nenhuma reação, sem saber o que tinha feito e porque tinha feito. Quando vou saindo do prédio alguém me toca no ombro, em prantos, é meu chefe. Ele diz, sem se conter:
"Como alguém escreve uma coisa dessas, com toda essa carga emocional, com toda essa propriedade se essa pessoa nunca viveu fora daqui, para além desse complexo? Como você pode se questionar das coisas que eu vivi? Como você pode em minutos escrever tudo isso?"
"Não demorei minutos, demorei minha vida toda, e não me questionei das coisas que você viveu, mas do que eu vivi. Por fim, entenda, nunca sairemos daqui e ela, nunca será nossa..."
"Nosso livro? Ele nunca, nunca será escrito, pois, nesse momento, ele está sendo vivido, e assim será, até que eu deixe de ser você e você deixe de ser ela, assim que tudo deixe de ser da forma como confabulamos e passe a ser do jeito que fizermos."
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