O mundo movimenta. Vejo aquelas luzes todas ao longe, quase posso tocá-las, tanto as brancas como as amarelas. Não dá para contar, é rápido. Escurece. Não mais as vejo, infelizmente não consigo saber quantas luzes me iluminavam e iluminavam a cidade. Clareia novamente. Consigo vê-las ao fundo, as imagens passam rápidas neste momento. Estão distorcidas. Minha visão assim se faz, tudo se distorce. As luzes e toda claridade vão baixando lentamente. Eu apago. As coisas passam por mim, eu acho, mas eu estou em outra dimensão. Os pensamentos são dispersos, vagos, prazerosos. Desperto. As imagens voltam gradativamente. Primeiro me surge uma mulher, ela me dá um sanduíche. Depois vejo pessoas, bicicletas, todos passando rápido por mim. Ou eu por eles. Paro.
"Menina, aquilo é um cachorro. Me bateu a noite toda... se não fosse aquele pedaço de..."
Volto a me movimentar. Na verdade, todos ao redor se movimentam. O mundo se movimenta. Vejo uma senhora levando um côco ao esposo, com um canudo e todo carinho. Dava pra sentir da distância que eu estava. Me projeto neles. Mas eu nem tenho quem me dê um côco. Muito menos com carinho. Muito menos carinho. Olho pra cima. É tudo cinza. Me faço todo de cinza, de cinzas. Olho pro lado e o azul me ensina, me preenche, me neutraliza. Agora faço parte da paisagem. Em constante mover. Mas inserido. Vejo pessoas felizes correndo. Não sei pra quê correm. Que pressa é essa? Pior, como felizes? Não me vejo neles. Não pela felicidade, mas pelo correr. Só olho. Me movem. Eu parado permaneço. Feiras. Pessoas. Frutas. Pessoas. Dinheiro. Pessoas. Sorrisos. Sofrimento. Apago.
...
"Senhor? Senhor? Chegamos. Muito obrigado pela preferência."
Desço. Não sei sobre que preferência ela se refere. Não prefiro nada. Nada me prefere. Mas ando. Parado, mas ando.
Um comentário:
Tu dissesse que tinham sido dois contos e duas poesias.
Isso aí é uma poesia, filho. E das boas!
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