De repente eu me vejo aqui, só, sem objetivos meus, numa guerra que não é minha, na verdade, as guerras não são de ninguém, pelos menos não de ninguém de carne e osso como nós que as lutamos. Eles nos mandam pra esses campos abertos e ligam uma plaquinha escrito "foda-se" quando apertam a mão da gente e nos enviam. O pior é que eu me pergunto por que isso, o pior sempre são as perguntas, elas que sempre acabam com toda convicção, com toda fé sem fundamento e, essas coisas, é que movem o mundo, por isso que as guerras possuem vencedores em cada batalha, quem perguntou menos "que porra eu faço aqui em vez de estar sentado no meu sofá tomando uma cerveja?" venceu, simples assim. Eu, infelizmente, digo infelizmente pra caralho, me pergunto não só isso como várias outras coisas sempre e, puta merda, isso acaba comigo cara. Eu não nasci pra isso, pra pegar em arma e esse tipo de coisa, eu sei que ninguém nasce com isso, que o ideal é ninguém fazer esse tipo de coisa mas, agora já é tarde pra voltar dessa trilha suja que se criou...
Gritos e gemidos aumentam a cada segundo, o caos impera na cabeça daquele ser e, com a alma furiosa, ele esbraveja:
"Porra Astolfo! Não posso nem ensaiar mais cacete! Até trepando você faz questão de dizer que está perto, de mostrar o que está fazendo! Faça-me o favor Astolfo!"
Alstolfo morava naquela casa partilhada com ele, desde que o conheceu na Universidade, eles não eram estudantes mas, bem...lá eles se conheceram e uma grande amizade nasceu...bem, eu precisava dessa frase de efeito mas, a verdade é que eles se toleravam mas, não era bem bem uma amizade propriamente dita. Astolfo era cantor, bem-humorado, gostava de boliche, lia pouco e, herdara de seu pai o mal costume de ser exagerado, preguiçoso e espaçoso, no mais, isso já basta para o encaminhamento da estória.
"Cara, as coisas não funcionam assim, temos que nos acostumar a fazer esforços um pelo outro, sempre me esforço por você mas, parece que custa muito fazer o mesmo por mim né?!"
"Sem dramas Astolfo, você precisa respeitar meu espaço, tenho coisas pra fazer e toda hora você me aparece com uma!"
"Ah cara! Depois que você decidiu fazer alguma coisa, você ficou chato pra dedéu, antes era tudo tranquilo, sem preocupação..."
"Eu não conheço essa época não, sou ator desde que me entendo por gente, ou seja, antes de conhecer você, não faço nada disso de agora não!"
"Sempre manipulando as coisas, sempre se saindo, querendo levar a melhor né cara?"
"Eu? Não entendo nada disso, estou aqui porque o sistema me colocou porra! Isso tudo nem é meu, nem de interesse meu, fala sério, se questionar é ruim demais!"
"Cara, você e seus personagens se misturam, isso me assusta muito. Ainda lembro da fase em que você fez aquele viadão!HAHAHA! Hilário, você deu em cima de mim!"
"Vai tomar no cu idiota! Primeiro de tudo, o personagem era homossexual não 'viadão', segundo, eu não dei em cima de você, apenas estava ensaiando um trecho da peça."
"Conta outra cara, essa você já disse e, eu, continuo sem acreditar...mas, falando sério, quando é que você vai se apresentar, filmar...sei lá, mostrar algo, porque a gente só vê você ensaiando mas resultado que é bom nada, não vem dinheiro, não vem prêmio, nada!"
"Astolfo, meu querido Astolfo, quando você vai entender que dinheiro, fama, glória, isso tudo, não é porra nenhuma! O importante é fazer, ser, sentir, a coisa metafísica do negócio cara...porra, a gente passa essa bosta de vida só pensando em ganhar, ser rico e, parando bem pra pensar, eu vi que não é desse jeito, essa vontades não são nossas, são colocadas em nós, o melhor é o fazer, o durante, o caminho...saca?"
"Que viadagem é essa meu irmão? Teu personagem é gay de novo?"
"Puta merda Astolfo, quando você vai crescer? Quando você vai pensar no que é importante e não ficar se detendo em coisas supérfluas, diminutas...porra cara, sinceramente!"
"Vou pensar no que você me disse...de verdade."
"Pensar? É bom as vezes mesmo Astolfo...bom mesmo, as vezes faz até bem!"
"Muito engraçadinho senhor espiritual sabe-tudo!"
"Agora vê se vai dar uma voltinha e me deixa trabalhar cara, uma hora pelo menos..."
"Tá tá,tô saindo..."
Fecham-se as cortinas, o público aplaude de pé. Em seguida, as cortinas são abertas, os atores voltam e agradecem, os aplausos se tornam ainda mais intensos. Após alguns minutos, as cortinas são novamente fechadas e os espectadores se dispersam, os créditos começam a surgir na tela, as luzes se acendem e o filme acaba.
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