"É sempre uma questão de dar espaço, aquela brechinha já é suficiente. Eu sempre dou esse espaço. No primeiro gole, no primeiro estímulo, eu já sabia o que aconteceria e não ofereci a mínima resistência, pelo contrário, aliei isso à minha qualidade primordial, a capacidade de fingir que nada aconteceu e oferecer minha cara lisa, de pau, pra qualquer um que sente do lado e inicie a prosa, ou o verso.
Eu, homem crescido, maduro, quer dizer, porra nenhuma de crescido e maduro, eu, homem conflito, conflituoso, preso na rede da mentira, ou da falsa verdade, tento me ver, mas não, não me vejo, não me situo, relembro a situação e não vejo mais a mesa com 7 pessoas, vejo apenas 6, não estou lá, não estive lá, não estarei lá, nem na mesa, nem na casa, nem no coração, que fracamente pulsa forte. Palavras surgem a todo momento saindo não mais da boca, mas do coração, da tripa, do estômago, ácidas, corroedoras de sensações, cheias de pudor. Não vejo como falta de coragem, vejo como medo de agir, de sair do anonimato espacial e virar objeto focado, eternamente desfocado, mas no centro e, isso não me agrada, vivo, sem juízo de valor, apenas vivo e tento não ser o que não quero e que não querem que eu seja. Tenho vários papéis, vários personagens no jogo teatral que são minhas relações, até as mais francas, todos estão fantasiados, gosto deles assim, na verdade, de qualquer jeito. Não sei, de fato não sei ignorar pessoas, sensações, percepções, elas me prendem, me chamam, me provocam e eu cedo, cedo sempre, não que eu diga aos 4 ventos, eu até digo, mas dentro de mim mexe, vira, vai, volta e chega com gosto amargo na garganta, queima, muito.
Eu digo no meu sorriso, na minha forma de olhar, no meu ato de mostrar que mesmo sem fazer parte estou ali, soando participação, digo tudo, pouca gente vê, consegue ver, pouca gente entende, mas eu gosto, bem, gosto nem sempre, porque as vezes quem você quer que veja olha, mas não vê, ouve, mas não escuta, fala, mas não sente, isso é foda, isso é desgastante, entregar o presente e ele ser repassado, ou pior, desprezado.
Minha rispidez e amargura não estão sempre assim, em alta. Costumo sorrir, tenho sim esse bom hábito, me visto e revisto com ele. Mas, como qualquer coisa, não dá pra usar sempre, às vezes falha, às vezes agride, em suma, provoca o oposto do imaginado, não sei bem, nem o que faço e, muito menos, porque faço.
Pois bem, voltemos a minha cara de pau. Enquanto eu, mais uma vez, a utilizava de modo sórdido nos atos mais babacas e primitivos, quem observava não consegui ver o que, de fato, estava ocorrendo, antítese homem, a antítese eu, o fora e o dentro brincando de brigar, a cara lisa contra a agitação, o desespero, o surto e a solidão. Uma lista um tanto difícil de ser combatida essa anteriormente citada, ela é muito rock, é muito desleal na lealdade, infiel na fidelidade, ela me mata e me acorda, ela é que me balança e diz: você não existe e, se, por acaso existisse, estaria repleto disso.
Despindo-se de figuras de linguagem e estratégias nada estratégicas de narração, me vejo, enfim, sem mim, com muita coisa pra ser feita e mais inércia ainda, só, isso é o pior, palavra que me soa filme de terror, so..so..solidão. Nasço sempre, e esse é mais um nascimento e mais uma morte, tento, não cometer as mesmas asneiras, mas não adianta, sempre as cometo, isso me faz e me desfaz, me veste e me despe. Amo, verdade, amo muito, muitas coisas, sem pensar me deixo, não sei bem, mas no fim de mais um começo reconheço, as pessoas que me fazem ser, sentir, que me colocam na mesa e completamos 7, as pessoas que participam das angústias, que protagonizam em mim sem necessariamente acontecer o recíproco, sei lá, amo tudo, amo o amor de não amar e ao mesmo tempo poder amar, afinal, é mais uma arte, arrisco dizer que a que melhor atuo, não em qualidade, mas em dedicação, me dedico muito, muitas horas por dia, pra que, quem sabe, eu possa escrever outra coisa diferente dos espaços que eu dou, possa acordar e ir vivendo sem me arrepender de falar merda e fazer merda por causa de mim, dessa maldita brecha que insiste em crescer, do vão que eu crio e me guardo..."
"Onde mesmo eu estava antes de derrubar esse copo de cerveja? Ah, ditando a fala de Miguel Solandrez acerca da solidão e do vão...da....da brecha! Isso mermo! Não sei onde estava minha cabeça."
...
"Nem meu coração"
Um comentário:
Andei pensando coisas.
"O que é raro", dirão os irônicos.
Ou "o que foi?" - perguntariam os complacentes.
Para estes últimos, quem sabe, escrevo.
E repito: andei pensando coisas sobre amor, essa palavra sagrada.
O que mais me deteve, do que pensei, era assim: a perda do amor é igual à perda da morte. Só que dói mais.
Quando morre alguém que você ama, você se dói inteiro(a)- mas a morte é inevitável, portanto normal.
Quando você perde alguém que você ama, e esse amor - essa pessoa - continua vivo(a), há então uma morte anormal.
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