quinta-feira, 28 de janeiro de 2010

O somos

Naquele dia não ocorreram atentados ou grandes façanhas esportivas, nenhum furacão tropical invadiu qualquer região costeira e, por incrível que pareça, nenhum político deu vexame. Para muitos, um dia calmo e sem graça, para Marina, foi o dia que mudou o rumo da sua vida e, de certa forma, lhe mostrou que a vida poderia possuir algum significado, por mais piegas que isso possa parecer e por mais contrário que fosse ao seu próprio pensamento. Não esqueçam da palavra antes dita: poderia, ou seja, não presumam que eu acredito nessas coisas, limito-me a narrar os acontecimentos e no máximo, poucos sentimentos. A questão é que, naquele dia, Marina estava prestes a se jogar da cobertura do prédio onde morava, poderíamos tecer teses e mais teses sobre a causa ou as causas: o namorado que a largou pelo seu personal treiner, as constantes brigas com a mãe bêbada, a morte do seu melhor amigo num acidente de avião, a crise econômica que o país passava, sei lá. O fato é que nenhuma delas seria satisfatória e certeira, na cabeça de Marina, outras preocupações, outros sentimentos se mesclavam e a dominavam, era a liberdade, tudo que ela queria, num mundo onde ela não sabia o que era e nem o que sentia. Pensou e, durante aqueles breves segundos que antecedem a decisão final, um papel grudou bem no seu rosto e, da luta com ele, quase que ela escapole para o asfalto, tá tá, você deve estar pensando "bom, que ela caísse, não era o que ela desejava?" mas, ao sentir o contato do papel, algo que nunca vamos saber, estalou na cabeça dela e fez com que, mesmo que temporariamente, desistisse do seu intuito original. Após alguns segundos de luta corporal com o papel, ela finalmente venceu e, não se sabe porque, quis conhecer melhor seu quase algoz da morte, lendo seu corpo de trás pra frente. No papel estava escrito com letras explícitas de puro desequilíbrio: "Nós somos, somos, sempre fomos". Não entendo, nem pretendo mas, os olhos de Marina brilharam de uma forma nunca antes vista, a convertendo em uma maravilha, uma musa que eu poderia ter ficado dias vendo, não fosse a sua inquietação, que fez com que ela olhasse acima da parte onde estava e me visse, quase numa posição de meditação, como que evocando um mantra, é, a partir daí as coisas ficam um pouco mais confusas, de fato.

"Quem é você, ser estranho?"
"Opa, opa! Não sou estranho coisa nenhuma, até parece que eu é que ia me matar e fui salvo por um papel!"
"Você...você não sabe de porra nenhuma, eu só só só tava...vendo a paisagem, é é, a paisagem."
"Ah, explicado os batimentos acelerados e a hesitação em subir na sacada, claro, é justamente isso que causa uma paisagem repleta de fumaça e prédios quase iguais, por que não pensei nisso antes!"
"Dá um tempo, beleza? Agora, sem fugir, quem é você e o que que tá fazendo aqui em cima?"
"Você me conhece por vários nomes, mas gosto quando me chamam de 'Aquela que sempre chega'"
"PUTA QUE PARIL! TU É A MORTE É PORRA?!"
"Se preferir, posso ser..."
"Quer dizer que era pra eu ter caído era?"
"Não, não, você tava na minha lista como incerta, ou seja, é quando existem variáveis contra e a favor, quase que se equilibrando, como seu caso me interessou, vim acompanhá-lo pessoalmente."
"Mas mas mas eu eu eu...sou muito nova ainda né? Já me arrependi já, quero mais brincar não..."
"Ha-ha-ha...Tá, acontece que até pouco você queria jogar meu jogo."
"Mas eu recebi esse papel, eu sei que mandaram ele especialmente pra mim, eu sinto, agora tudo vai ser diferente, vai ser sim, pode ter certeza."
"Marina, não vim pra lhe buscar, a Morte também sente algumas coisas, eu senti algo me chamando. Quando cheguei, de cara, gostei de você e, quando vi seus olhos brilhando ao ler aquele pedaço de papel, eu eu tive até calafrios, há tempos não tenho isso."
"O que você quer dizer?"
"Que eu gosto de você, quero lhe conhecer melhor, conversar, quem sabe a gente não se ajuda."
"Mas, se ajuda com o quê?"
"Sei lá, com a vida...ou com a morte."
"Muito engraçadinho...engraçadinha...afinal, você é homem ou mulher?"
"Sou um pouco de cada e nenhum deles."
"Ah tá. Beleza então, eu não deveria dar trela para estranhos mas, vou abrir uma exceção e conversaremos um pouco."
"Ah, mas eu não sou estranho, até alguns minutos atrás você não me tirava da cabeça!"
"Todo gozadinho a senhora. Como não sei se você é homem ou mulher, vou tentar usar os dois, meio que equilibrando..."
"Pois bem, faça como se sentir melhor. Marina, você queria se jogar de verdade?"
"Não sei, queria sentir que podia me jogar, mas não sei se faria, pensando bem, não teria pra quê eu fazer isso, mas ultimamente tenho perdido o controle de tudo, sabe?"
"Sei sim, sei bem, já perdi o controle de muitas coisas, agora mesmo, perdi o controle e estou aqui conversando com você."
"Mas isso não é perder o controle..."
"Você que pensa, não deveria, nem poderia estar me mostrando, muito menos falando com você se, nem ao menos vou levá-la comigo."
"Não vai?"
"Não, não vou."
"E por que isso tudo?"
"Nem sei, quis me sentir livre, sentar, amar, ver, também queria um pouco de liberdade, me vi muito em você."
"É, mas eu por pouco acabava com toda a liberdade verdadeira que eu agora tô vendo que eu posso ter."
"Mas a minha estratégia do papel foi bem recebida, há tempos não a usava."
"Como você é ordinário, vaca!"
"Ha-ha-ha...é bom perder o controle de algumas coisas, só assim você adquire o poder de outras, obrigado por tudo Marina, aproveite a liberdade."
"Mas, o que significava aquilo que estava escrito? Ei, cadê você? PORRA! Não acredito que esse idiota se foi sem me dizer isso! Puta safada!"

Ela não me via mais, mas eu a via, eu a sentia, acho que, mutuamente tivemos e demos aquilo que podemos, enfim, um pouquinho de liberdade, seja lá o que for, somos, fomos!

Um comentário:

André Valença disse...

"não sei se você é homem ou mulher, vou tentar usar os dois, meio que equilibrando"