sexta-feira, 26 de dezembro de 2008

A ponte

Ana caminhava na fria rua cheia de prédios gigantes e quase nenhum vestígio de existência vegetal. Por incrível que pareça, quando Ana era uma criança a aparência daquela cidade era quase que inversa ao descrito no início, a modernidade não tinha encontrado ainda aquela pacata cidade. E, mais incrivelmente ainda, era a primeira vez que ela reparava a mudança, que de sutil não teve nada. Ana se perdeu nos problemas pessoais e cuidou muito da vida de todo mundo, tentou se ajudar ajudando os outros, não digo que ela não ajudou as pessoas, isso ela fez, mas ela esqueceu de tudo aquilo que gostara um dia, sua granja, seus animais, sua família e tudo que antes lhe era presente. Nos seus pensamentos agora ela ia mais fundo, ela parava pra pensar que o mundo, a mídia, todos estavam se juntando para dar cada vez mais problemas para ocupar as mentes das pessoas, fazendo com que elas se esqueçam de tudo de maior que sempre tiveram dentro de si. Quando Ana via algo em prol do meio ambiente, da não destruição da mata nativa, dos animais e seus habitats naturais, sempre, sempre, era possível ver que na verdade aquilo ia beneficiar um grande produtor ou grande empresa, ou uma minoria, nunca o beneficio maior era pra quem era dirigida a campanha. Ana, nessa altura de sua vida, pensava se ela realmente pensava sozinha ou também, na verdade, pensavam pra ela e a faziam crer que aqueles pensamentos lá colocados eram realmente seus, pensava se todos aqueles anos na empresa do seu ex-marido, trabalhando no intuito de ajudar as pessoas com dificuldades no trabalho ou que tivessem reflexos nele, teriam sido em vão, agora ela achava que tudo que fez acreditando que era uma ajuda não tinha passado de um ilusão, ela era iludida, iludia os trabalhadores que, por sua vez se iludiam com a empresa e, pior, com suas próprias vidas. Ana chegou onde queria, na velha ponte, onde quando era pequena, levava seus namorados e ia com seus amigos olhar os imensos e intensos redemoinhos que eram formados pela violenta correnteza. Foi ali mesmo, na ponte de toda sua vida, no único lugar que ainda ligava sua infância ao resto de sua vida que ela se jogou e deixou a vida ir pra longe, sem nenhuma resistência.

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