quinta-feira, 18 de dezembro de 2008
O aquilo
João fazia aquilo e achava o máximo, tanto a sensação quanto a visão das pessoas em relação àquilo. Era um momento em que João se sentia grande e esquecia das coisas que tanto vinham lhe preocupar. Durante aquele breve, porém prazeroso, intervalo de tempo tudo era tão simples e tão fácil mas, passado o momento João sentia algo estranho, como se tivesse feito algo errado, se sentia uma pessoa menor, uma pessoa fraca. Ele lembrava da mãe e isso sim lhe fazia mal, lembrava das coisas que ela falava, de como seu pai se deu mal quando se envolveu nessa mesma situação. Na verdade mesmo, João gostava desse misto de sensações, ele nunca foi muito convencional, gostava dos mais fracos, tinha um apreço muito grande pelos excluídos, na minha opinião, ele se identificava com eles. João era meio Clarice Lispector e ele sabia disso, ele gostava disso. Introspectivo por natureza, João levava uma vida com muitas regras, não que ele gostasse ou aceitasse, simplesmente por incapacidade de fazer algo pra mudar a situação. Muitas pessoas confundem as coisas, dizem que esse tipo de gente é educada, quieta e que os que muito falam e questionam são os revoltados, os inconformados, João é prova que essa é um falsa verdade, ele era um inconformado, mas sua natureza não lhe permitia a retirada desses grilhões semi-visíveis. Talvez por isso ele gostasse tanto daquele momento em que ele sentia que nada o prendia. Não cabe a nós, terceiros, discutir se João fazia algo certo ou errado, isso não é uma questão pura e simples, não é algo consumado e que exista pré-requisitos para seu uso, mas cada um é cada um. Não existe verdade absoluta no mundo, só na cabeça das pessoas, e essas, teimam em fazer das suas verdades as verdades do mundo, a partir disso é que são gerados preconceitos e pré-julgamentos como os que faziam com João em vários aspectos de sua vida, principalmente em relação a sua forma de obter o prazer e de se libertar. Eu não sou ninguém, nada posso falar, mas creio que ele poderia obter outras formas de encarar seus problemas, porque fugir toda hora não adianta. Às vezes precisamos ver o mundo de outra forma, sob outro olhar, mas toda hora é se ausentar dos conflitos diários, que muitas vezes nos fazem crescer. Mas isso não é um pura verdade, é uma verdade de uma pessoa, talvez a de João fosse outra, era outra. Tudo isso serve para vermos que o mundo é (des)construido por visões e liberdades, que são construídas por cada um, mesmo que sob grande influência de algo ou alguém, então, concluindo, João, eu, você, temos que saber que cada visão, cada liberdade, se encerra quando começa a do outro, logo não pense, não haja absoluto pra não ser obsoleto, saiba que uma verdade é ao mesmo tempo várias outras verdades e muito mais mentiras.
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