domingo, 9 de novembro de 2008

O (des)encontro

"Puta que pariu! Toda vez é isso!". É, foi justamente isso que Marta disse para o rapaz. É bem verdade que eles sempre marcavam um horário e ele nunca chegava na hora. Não que ele não tentasse, mas sempre acontecia algo. Pelo menos era o que ele dizia. Eu acredito! Quer dizer, nem sei. Mas, enfim, o que importa é que pra Marta ele não se interessava e nem se esforçava pra chegar nos encontros. Como todas as situações na vida em que algo se acumula como uma taça se enchendo de chopp, uma hora transborda. A paciência de Marta transbordara. Marta era uma mulher como tantas outras, que já apanhou de homem safado, já amou homem safado, já perdeu dinheiro para homem safado e tudo mais. Logo, ela desenvolveu um sistema de defesa muito eficiente, pelo menos ela dizia que era, e foi, até o rapaz aparecer, 15 anos mais novo, com aquele cheiro de hormônio saindo pelos poros do corpo, como todo aquele jogo de cintura, toda malandragem que cabia dentro daqueles olhos verdes e 1,85 de altura. Quando Marta o viu entrar no bar ela enlouqueceu. Na verdade ele também. Mas não podia demonstrar, pelo menos não na frente dos amigos. Naquele dia, sem sair uma palavra qualquer de suas bocas eles se amaram. Treparam a noite toda. Ele deixou sua pinta de galã de lado e deu seu telefone a ela, que por sua vez se derreteu e deu aquele sorriso que sugere mais do que uma capa de Playboy. Depois disso é de se imaginar que eles se telefonaram e se apaixonaram ainda mais. E realmente assim sucedeu. Do mesmo jeito que um sonho quando é realizado, que perde sua magia, ocorreu com o relacionamento. Tentaram de tudo, tudo e mais um pouco, todas as posições que o Kama Sutra pode sugerir, jurando que o problema era no sexo. Marta achava que além disso, seus atrasos eram inadmissíveis, que ele não tava nem aí pra ela. Ele, por sua vez, achava injustiça ela jogar toda responsabilidade nele, que ele tentava, que ele se esforçava, e mais, que ele queria resolver tudo. Todo dia era a mesma briga, todo dia um jogava a responsabilidade pro outro, jogando um ping-pong eterno. Um dia eles acabaram o relacionamento, cada um ainda achando o que achava desde antes, cada um com a angústia de ter tomado uma decisão sem saber se era a decisão que eles realmente queriam, e o pior, não demonstrar isso. Não podiam parecer fracos. Eles se amaram, de fato, da forma deles. Viveram suas vidas, sempre fingindo que tudo tinha se resolvido, que não tinham nada pendente um com outro, ainda mais, consigo mesmo. Viveram com a eterna sensação de quem tinham uma pedrinha no sapato. Nunca perceberam que eles eram a pedrinha no sapato.

2 comentários:

transparessencia disse...

A pedra do chão avisava. Tudo era eco e ela ouvia, sem poder impedir, o silêncio do cerco comunicando-se pelas ruas do bairro, e via, sem poder impedir, que as portar mais fechadas haviam ficado. Mesmo a estrela retirara-se. (clarice)

melembreidesseconto

André Valença disse...

"...aquele cheiro de hormônio saindo pelos poros do corpo, como todo aquele jogo de cintura, toda malandragem que cabia dentro daqueles olhos verdes e 1,85 de altura."
eu tenho 1,74, só para a sua informação.