Eu ficava sempre ali, naquele mesmo lugar, naquela mesma praia. Eu poderia ser um famoso pesquisador marítimo que usava um gorro vermelho e que se perdeu nas andanças da vida, poderia ser um messias litorâneo, poderia ser um ex-ídolo da TV que fugindo do assédio descontrolado dos seus fãs veio parar nessa paradisíaca paisagem. Mas eu não era nenhum desses e nem essa faixa de terra banhada pelo mar era o que se chamaria de paraíso. Na verdade, pra ser bem sincero, eu nem sei quem sou e que lugar é esse que eu estou e permaneço. Sei só do dia em quem ele apareceu - ou foi o dia que me dei conta de que ele existia? Bem, isso não faz muita diferença. A primeira vez que o vi, foi aqui mesmo, bem nessa pedra onde estou deitado agora. A gente se cruzou e nossas espinhas gelaram, nossas barrigas fizeram barulhos estranhos, mas ambos continuamos andando como se nada diferente tivesse acontecido. Fingimos que nem olhares trocamos.
Assim foi durante muitas marés, muitas luas, muitas tempestades. Até o dia em que, como se tivesse sido ensaiado para uma peça, ele tropeçou e caiu bem na minha frente com a cara enfiada na areia. Levantou impassível, mesmo cheio de areia por todo corpo molhado, e disse: "Essa praia é tão...". Não chegou a terminar a frase. Ficou admirando as ondas, que agora estavam na sua frente. Começamos a conversar assim. Vocês, que não conhecem o Mar, a força dele, podem pensar que foi coincidência a queda, ou até que foi armada toda aquela situação. Mas eu sei que foi o Mar, sei de toda força, sutileza e magia que ele possui.
Meus caminhos nunca mais foram os mesmos. Desde o dia em que acordei aqui nessa faixa de areia misturada com pedra sem lembrar sequer meu nome sei que meu caminho mudou. Os mais céticos podem pensar que caminho não muda, porque você vai construindo. Mas não, não acreditem nessa bobagem. Caminho que é caminho tem formulação, pensamento, estudo. Mesmo que tudo isso aconteça sem você saber. É através dos estudos das possibilidades, dos sentimentos - seus e os alheios, das conspirações universais e zodiacais, aliados com a formulação inconsciente da sua trilha e suas ambições, dos seus amores projetados e inconclusos, só com isso tudo junto é que se têm um caminho. Mas claro, você pode mudá-lo, apesar dele nunca deixar de ser caminho. Além ainda de todas as variáveis que não são controladas.
Mas vou deixar de tratar sobre isso, agora quero falar de simplicidade. Por isso quero falar dele. De nós.
Depois de tudo que o Mar fez para mudar meu caminho, as coisas aconteceram naturalmente. Passamos madrugadas inteiras conversando, nos encantando. As ideias dele eram lindas, firmes, mágicas. Pescávamos durante boa parte do tempo, flutuando naquela balsa improvisada. Nossos assuntos eram tão nossos, nossas conversas eram tão nossas que talvez se um terceiro nos visse fazendo o que fazíamos e falando como falávamos olharia estranho e não entenderia nada. Criamos um mundo, eu, ele e o Mar.
Até o dia que sem mais nem menos vieram umas pessoas de branco, colocaram ele para dormir e o levaram. Levaram ele. Levaram meu amor. Agora somos, novamente, só eu e o Mar.
Um comentário:
Narrações em primeira pessoa são capazes de engolir a gente e cuspir a gente em labirintos autocognitivos.
O cuidado para não abstrair o mundo é todo desperdiçado.
A gente sonha mais, no entanto.
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