segunda-feira, 2 de maio de 2011

(Di)Fere

Eu fingia que não a via. Bebia cada vez mais rápido e em goles maiores, tentando me distrair com alguma coisa. Acendia um cigarro atrás do outro. Conversava com as pessoas da mesa fingindo que estava olhando para elas. Sorria alto e fazia questão de dominar as conversas ao meu redor. Fazia de tudo pra tentar desviar o verdadeiro foco do momento, a verdadeira coisa que meus olhos buscavam incessantemente. Alguns meses já tinham sido riscados no calendário desde a última vez que havíamos nos encontrado e, por incrível que pareça, a saudade estava ainda maior. Os amigos dizem sempre que você está exagerando e que com o tempo, naturalmente, as coisas se ajeitam. Ela também me dizia isso. Mas, como tantas outras coisas que já ouvi, eu não acredito nisso. O tempo não é um organismo vivo que muda algo ou faz algo, é apenas uma convenção criada pelo ser humano. Eles sim, os seres humanos, é que mudam as coisas, que detém esse poder. Mas é demais pra esses andróides narcisistas assumir que são fracos e preferem o mais cômodo: esvaziar a mente e cancelar algo da sua vida até nem se lembrar mais desse algo. Ou alguém. Por isso jogam a culpa no coitado do tempo. Sempre ele, historicamente e sentimentalmente culpado. As pessoas falam que tudo depende do que você acredita e "escolhe" processar na mente. E, nisso, eu acredito, mas não prefiro o caminho mais fácil, gosto de pensar até ficar exausto sobre os assuntos. Não acho que um pessoa deixe de representar algo ou de sentir algo só porque o outro botou na cabeça que é pra ser assim. Onde está a naturalidade? É, eu não sei. Mas enfim, nem o que eu tô falando aqui eu sei bem. Lá no bar, eu via quanta coisa estava igual, quanta estava diferente. Quanta coisa não estava. Eu olhava e o coração automaticamente falhava, apertava. Tentava recapitular pra o momento exato onde tudo se perdeu, onde perdemos tudo. Onde nos perdemos. Eu, quando menos percebi, olhava com a mesma leveza e paixão de tanto tempo atrás. Ela sabia que eu a encarava, mesmo que não diretamente. Eu sabia que o contrário também acontecia. Mas a briga dos egos nos impedia de algo mais sincero ou espontâneo. Era mais importante cada um lutar pra mostrar sua força e parecer impassível, principalmente um para o outro. Eu não lido bem com esses duelos e não lido bem com a pouca disposição para se ter um coração aberto. Por isso sempre jogo a toalha no começo de tudo, desisto fácil de tentar falar o que realmente quero. Falo muito, mas outras coisas. Do nada, pedi a conta e chamei meus amigos, dei uma desculpa qualquer e fomos embora. As pernas andavam devagar, se distanciavam lentamente, mas o coração tinha partido na frente muito antes, ele foi o primeiro a desistir de tudo. Enquanto eu saia, e até agora, uma coisa me assustava e martelava com força na minha cabeça: o cabelo dela estava preso de uma forma diferente.

2 comentários:

transparessencia disse...

a naturalidade faz com que tudo seja mais lento..
porém, mais verdadeiro
isso é bom

devagarzinho..quase parando
mas andando!

lento, lentíssimo. (uso isso no teatro)
por que não em la vida?

nesse tempo e nesse andar..(do lentíssimo ao lento) muita coisa fica diferente..o de dentro reflete no de fora.
e é perceptível

vai sendo.

j. a. (parajuliarraes@gmail.com) disse...

quando comecei a ler, sabia que nao sairia impune. gostei demais!