terça-feira, 21 de setembro de 2010

Vamos nos tirar desses lugares

Minha cabeça não estava nos melhores dias, eu também não. Saí vagando cidade afora, o rio me engolia e me conduzia, passava pelas pontes e só pensava em não mais pensar. Queria sair, sair de mim, sair daqui. Não era possível reconhecer em que ponto, em que detalhe, tudo ficara assim, sem volta. Eu conseguia me ver de cima, da visão celestial, eu era só mais um, fazendo exatamente o que milhares em todo mundo faziam, partilhando de um sentimento que está junto do homem desde que ele assim se define, o sofrimento.

Não entendia porque as pessoas e as coisas não me amavam. Quanto mais eu tentava mais quebrava a cara. Percebi naquele momento, ao ver a fraca luz verde daquele recinto pequeno e aconchegante que, tudo que eu precisava era de distração, esvaziar tudo.

Entrei de coração aberto e com a mente mais ainda, disposto a tudo que fosse raso e profano, tudo que outrora negara, por pudor ou fingimento, agora me sentia não só à vontade como queria com todas as forças. O tapete que um dia fora vermelho estava desbotado e contava a estória de todo aquele estabelecimento, as garrafas de bebidas raríssimas nas prateleiras me diziam quem costumava freqüentar aquele lugar aparentemente simples. Um homem de traços fortes, marcado pela passagem do tempo, em torno dos 70 anos, mas, com um vigor e um ar de jovem esperto, estava apoiado no balcão e me recebeu com um sorriso discreto mas convidativo.

"Vai querer beber o quê, meu jovem?"

"Uma dose dupla desse uísque 24 anos aí..."

Serviu uma dose tripla ou quádrupla, não sei bem, mas colocou muito mais do que eu pedi. Percebendo minha surpresa, ele me interrompeu antes que eu pudesse pagar.

"Você está aqui por que precisa, quem pede uma dose dupla, na verdade, quer muito mais e, adianto logo, se você acha que uma dose tripla de uísque 24 anos é uma coisa rara, algum tipo de fenômeno, espere pra ver o que lhe aguarda neste corredor, é coisa muito mais mística."

"Não preciso de nada místico não, preciso de algo superficial, forte, que me faça esquecer o mundo em troca do prazer carnal puro e simples."

"Quando digo místico quero dizer que tudo que seja de sua vontade se encontra aí."

"Que bom, é um desse que eu preciso..."

Ele pegou um telefone dourado embaixo do balcão e sussurrou algumas palavras. Ao desligar, me ofereceu uma cerveja alemã por conta da casa, me contou algumas estórias e disse que eu não me preocupasse, que quanto ao dinheiro, acertaríamos depois, em outra hora mais conveniente. Me deixou aguardando uns 10 minutos, tempo em que saboreava a cerveja, e regressou acompanhado de uma linda mulher, que me fez um sinal para que eu a seguisse.

Percorremos um corredor mal iluminado, com paredes desgastadas, mas charmosas, com marcas de um passado glorioso. A mulher nada disse, apenas, depois de 2 minutos, apontou pra uma porta vermelha. A maçaneta estava um pouco emperrada, mas consegui abrir com jeitinho, sem barulho. Precisarei pular a linha agora, contar a primeira vez que a vi em um parágrafo exclusivo, dedicado a toda sua beleza.
Não consegui acreditar no que vi, uma aura de magia e coisas indefiníveis cobria seu corpo, formas e curvas tão belas e únicas que tive que esfregar os olhos. Esfreguei. Não era possível, ela ainda estava lá, do mesmo jeito, a perfeição, a Vênus viva, tudo de mais apaixonante se concentrando em um só corpo, em um só lugar do mundo. Não sabia o que fazer, onde botar as mãos, pra onde ir, o que dizer, na verdade mesmo, eu queria correr dali, aquilo tudo me deu medo, era muito pra mim, alguma coisa estranha tinha que ter...não me contive, perguntei um pouco descontrolado:

“Você é homem, né?”

“HAHAHA! Claro que não meu filho, sou mulher. E de nascença!”

“Tem certeza?”

“Como assim queridinho?”

“Nada não, deixa pra lá! Mas, o que eu faço agora?”

“O que você quiser. Só espero que seja rápido, tô muito cansada e não tenho tempo de ficar de lenga-lenga com qualquer um não.”

“Que hostilidade é essa? Essa é a especialidade da casa é?”

“Além de tudo, ainda é engraçadinho...pois saiba, se quiser foder tem que ser agora, sem demoras e sem conversinha”

“Nossa, que brabeza! Mas tudo bem, se você quer assim, que assim seja.”

Puta que pariu! Aquilo foi a melhor coisa que eu já fiz na minha vida! Se eu pudesse me dava um troféu. Dava um pra ela também. Foi muito bom. Ela apesar do aparente mal-humor e da hostilidade, se entregou de uma forma nunca antes vista e catalogada na face deste ou de qualquer planeta onde haja vida e sexo. Ela gritava, se debatia, falava coisas doces, me beijava, me apertava contra seus seios fartos, cravava suas unhas longas na minha pele suada e eu me perdia, viajava através de uma dimensão antes desconhecida, transcendia até um plano superior, até a hora do gozo, quando eu achei que tudo em mim seria posto pra fora, que eu seria reduzido a pó e, mesmo que isso acontecesse, teria valido a pena. Em seguida ela se levantou naturalmente e me disse:

“Hora de ir queridinho. E não abuse, não fique voltando não, vá pra sua casa, sua
mulher, suas filhas. Você já conseguiu a distração que queria. Adeus.”

Aquelas palavras me doeram demais. Eu não entendi. Nem as palavras dela, nem meu sentimento. Fingi desprezo e saí do quarto ainda me vestindo, sem sequer virar para olhá-la uma última vez. Caminhei pelo corredor, fazendo o caminho inverso e, quando dei por mim, estava com o coração acelerado e lágrimas avisavam que queriam cair dos olhos com toda força. Caí no chão e lá fiquei por algum tempo que não sei exatamente, até que braços fortes me apanharam e me levantaram com força, mas se violência. Era o homem do balcão, que me deu duas tapinhas nas costas e acenou para que eu lhe seguisse. Assim o fiz.

Voltamos ao mesmo salão da entrada, ele me apontou a cadeira pra que eu sentasse e foi para o mesmo lugar que mais cedo eu o tinha visto, como toda calma e um sorriso no rosto, perguntou:

“O que aconteceu meu jovem? Não lhe agradou o que viu e viveu?”

“Pe...pelo contrário. Eu vivi ali naquele quarto os melhores dias da minha vida.”

“Mas foram apenas alguns minutos que você ficou lá...”

“Não não. Foram dias, se brincar até meses.”

“Enfim, mas por que o choro e o desespero?”

“É que ela não gostou de mim, ela me tratou mal, como se eu fosse apenas um objeto. O único momento que a vi desarmada foi na hora em que a gente estava trasando.”

“As mulheres fingem bem meu rapaz, tanto na cama como fora dela. Você, com certeza, não sabe o que realmente ela sentiu no momento. Pode anotar o que eu disse.”

“Não. Ela não quer que eu volte.”

“Ah ela quer, quer sim, eu sei que quer. E digo mais, essa primeira vez é toda por conta da casa, nem se preocupe. Volte quando quiser e der vontade.”

“Ma...mas...eu nem...paguei as cerve...”

“Não. Não se preocupe, na próxima você me paga um drink para brindarmos sua volta.”
Confesso que achei tudo aquilo muito estranho, mas me retirei sem falar nada, ainda muito confuso com toda aquela sucessão de eventos estranhos.
Saí andando pelas ruas escuras da cidade, mas elas já não mais me causavam agonia, elas agora pareciam feitas sob medida para o meu momento, estavam belas e eu caminhava em paz. Cheguei em casa e fui direto para a cama, tinha trabalho no dia seguinte. Nunca me remexi tanto pra conseguir dormir, passei horas de um lado para o outro, com a imagem e o gosto dela em mim. Eu poderia desenhá-la facilmente, de olhos fechados, mesmo não sendo um bom desenhista. Nesses pensamentos me perdi, até apagar repentinamente.

Quando acordei no outro dia, um misto de paz e aflição se abateu em mim, fui direto olhar o relógio e comprovar: eu estava atrasado 2 horas para o trabalho. Liguei para o jornal e disse que estava doente e não poderia trabalhar. Claro que eu levei uns bons gritos do meu editor, mas valeu a pena, tudo que eu queria naquele momento era pensar nela. Tirei um dia para pensar nela, somente isso, viajar pelo seu corpo e nada mais.

A noite foi chegando e, sem perceber, eu já estava me arrumando com minha melhor roupa e meus melhores perfumes para ir vê-la. Às 20h em ponto eu estava na porta do recinto, esperando que abrisse, e isso só acontecia às 21h. Digo com toda certeza que foi a pior hora da minha vida, disparada.

Entrei antes das 21h, quando o segurança chegou. Quando entrei no salão o homem ainda estava empilhando com toda precisão e paciência o conjunto de taças de champanhe. Pedi licença e perguntei se poderia pagar alguma bebida para ele, que aceitou de bom grado. Antes que ele dissesse qualquer coisa, eu peguei um maço de notas altas e coloquei com cuidado no balcão, e sem agressividade, mas com muita firmeza disse:

“Eu quero vê-la novamente, e pago quanto for preciso.”
Ele sorriu, pegou o maço, tirou uma bela quantia de notas, devolveu o resto e falou:

“Você é muito bem vindo aqui, seu pedido será atendido em instantes, mas não precisa dessa formalidade. Nosso negócio não é dinheiro, vendemos esperança, alegria, carinho, nos importamos de verdade com vocês que vêm aqui. Só tiramos nossa parte para viver.”

“Entendo, entendo.”

Nesse exato instante ele serviu duas doses de uma tequila bem amarelada e empurrou um dos copos para mim, em seguida fez um brinde e nós tomamos de um trago aquela bebida quente, porém deliciosa, que me deu ainda mais ânimo para o que viria na seqüência. Ele pegou o telefone logo em seguida, só que dessa vez foi diferente, houve um bate-boca entre ele e a pessoa que estava do outro lado da linha, até que ele sussurrou umas palavras que eu não entendi e desligou bruscamente, sorrindo em seguida e dizendo que em alguns instantes tudo estaria pronto para mim.
Novamente, depois de alguns minutos, a bela mulher sinalizou para que eu a acompanhasse, e assim caminhamos pelos mesmo corredores da noite anterior até chegarmos na mesma porta. Daí pra frente foi praticamente igual à noite que tinha passado, ela me hostilizou e eu não soube o que fazer, trepamos como animais, mas com carinho, e em seguida ela me mandou embora.

Durante exatamente 17 anos, 3 meses e 12 dias aquela foi minha rotina. Larguei meu trabalho e passei a escrever coisas avulsas pra qualquer um que pagasse bem e fui sobrevivendo, me isolei do mundo só para viver ela, apenas ela. O homem do balcão já era, a essa altura, um ancião que falava com dificuldade, mas com a sabedoria e a esperteza de sempre, a mulher linda que me guiou todos esses anos não era mais tão bela assim, o tapete antes desbotado, agora já era praticamente branco, apenas ela, se conservava intacta, na minha mente, nos meus dedos e no meu coração. Durante todos esses anos foi sempre assim, eu ia, bebia com o homem do balcão, entrava, ela me hostilizava, fazíamos amor, ela me mandava embora pra nunca mais voltar e, no outro dia, na hora de sempre, eu estava lá novamente. Até o fatídico dia.
Cheguei um pouco atrasado, já preocupado em perder minha alegria e dose de energia e vitalidade diária. Quando estava próximo da porta, percebi que já tinha dado a hora de abrir, mas que a casa continuava fechada. Esperei cerca de 20 minutos até o segurança (que a essa altura já não passava a segurança de outros tempos) apareceu com uma cara de preocupação e me deixou entrar. O clima do salão estava diferente, a serenidade e as palavras do homem se perdiam a cada instante. Percebi, claro, mas fiquei na minha e fingi que era mais um dia desses 17 anos. Como de costume, pedi minha bebida. Ele apenas serviu um copo, aí não resisti e questionei:

“Onde está a sua dose, meu grande e sábio amigo?”

“Não, hoje eu não vou beber, não é dia para isso.”
Pelo tom amargurado, preferi não perguntar mais, tomei minha bebida num único gole e pedi que ele ligasse. Com muita calma, mas sem muita alegria, ele respondeu:

“Ela está lhe esperando. Não precisa ficar com essa cara de impressionado, você já conhece o caminho melhor que eu, vá lá.”

Muito atordoado, eu fui e percorri o caminho de todo santo dia. Apesar do tempo que havia passado, mesmo eu já sabendo o caminho e percebendo que o homem não gostava de bebidas, aquilo tudo já era parte de uma realidade, nós já tínhamos encontrado um equilíbrio e, a partir do momento que ele se desfez, eu já não me sentia bem, seguro. Percorri aqueles poucos metros com muita tensão, até que eu cheguei.
A porta estava encostada, apenas a empurrei. Não pude crer no que eu via. Ela estava em prantos, sem maquiagem e sem as roupas e adereços de sempre. Naquela hora eu percebi que também para ela o tempo passara, as rugas não negavam, mas, também pude perceber outra coisa, o quanto eu a amava, e despida do personagem, ainda mais meu coração se acelerava perto dela, mesmo depois de 17 anos. O que ela fez quando me viu, me assustou ainda mais. Ela correu em minha direção e me abraçou com uma força que eu nunca imaginei que ela possuía, com uma humanidade e com um carinho que eu nunca havia sentido de alguém para comigo. Assustado, apesar de feliz, perguntei:

“O que está acontecendo? Por que estão todos estranhos hoje?”

“Não vou me prolongar. Ele quer me despedir, disse que eu estou velha e que finalmente eu estou livre daqui e posso ir viver com você.”

“Como assim livre? E como assim viver comigo?”

“Desde o primeiro dia em que eu te vi entrar por aquela porta, eu sabia o que queria da minha vida. No entanto, eu não sou empregada daqui, eu sou filha dele e ele me prende aqui desde pequena para vender meu corpo a pessoas necessitadas. Como você naquela noite.”

“Que grandessíssimo filho de uma puta! Por que você não falou comigo antes? Por que não pediu minha ajuda?”

“Não ia adiantar, tentei fazer com que você fosse embora, disse até pro meu pai que nunca mais aceitaria dormir com você, ameacei me matar, mas ele me obrigava, me ameaçava, e depois de um tempo, ter você, mesmo da forma que era, me fazia um pouco de bem, me fazia sentir viva. Agora que eu estou velha já, ele disse que eu já não rendo nada, que eu posso fazer o que quiser. Mas você não vai querer uma prostituta vivendo com você.”

“Mas você era forçada a fazer.”

“Eu gostava.”

“Mas você não está velha, e eu não deixaria de ficar com você por nada, muito menos porque você é uma...uma... “

“Ta vendo, você não tem coragem nem de falar o que eu sou.”

“Não, não é isso. Eu vou lhe tirar daqui sim, vou levar você pra ficar comigo, pra todo o sempre, eu te amo demais, pena que você não acredita.”

“Eu acredito, mas é difícil demais pra mim, eu não sou bem vista na sociedade, o que seus amigos e família vão dizer disso?”

“Não quero nem saber. Se algum deles gostar de mim mesmo, não vai me julgar, apenas me apoiar e lhe receber de braços abertos.”

“Mas quando você ficar pensando em mim, no passado, nesses dias que vivemos, na minha profissão, nos homens com quem deitei...”

“Eu sei que você tem medo. Eu também tenho, mas vamos enfrentar isso. Nunca achei que isso ia acontecer, mas eu sempre quis ficar com você, e nunca vou me arrepender disso, por favor, não vamos perder tempo sofrendo.”

Nos beijamos como nunca achei que beijaria alguém, nunca achei que um beijo pudesse carregar tantas sensações ao mesmo tempo.
Saímos de lá sem pegar nada dela. Apenas parei no balcão pra dizer ao homem todas as palavras sujas que ele merecia, não bati nele por pouco, mas ela me convenceu que não valia a pena.

Começamos a vida do zero, numa fazendo no interior. No começo foi difícil, mas nos gostávamos muito, não só nos amávamos, nos fazíamos bem. Vivemos bem, sem muitos conflitos, nos relacionando bem com os vizinhos, com alguns amigos que me restaram da época do jornalismo nos visitando, tudo com muita paz. Até meu filho, que depois de adulto voltou a ter contato comigo, nos visitava e a tratava super bem. Nos últimos dias dela, ele, que era médico, se mudou pra minha casa e cuidou dela até o fim. Hoje, só, com meus noventa e sei lá quantos anos, recordo tudo e vejo como valeu cada momento. Agora sei, que o amor dela, independente de qualquer coisa, o carinho dela por mim, meus verdadeiros amigos e meu filho bastaram pra que eu conhecesse a felicidade. Eu não a salvei de nada, não a tirei de nenhum abismo, perto do que ela fez por mim, do bem que ela me fez, eu fui quase um egoísta. Na verdade, acho que nos tiramos desse lugar e de todos outros que nos aprisionavam. No fim, partimos livres. De tudo.

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